Crônicas

Bolinhas e fofocas em forma de sombra: perceba-as, antes de abrir os olhos

Inspira…

Expira…

(por 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 segundo….) Inspira…

Meu cachorro me vê sentada, coluna alinhada, joelhos e pernas e pés num emaranhado yogui, posição de lótus. Antes que eu expire, Zeca já está colocando a sua bolinha preferida, a branca, sobre uma das minhas mãos. E a bola escorrega. Tenta novamente; outra vez a bolinha rola no chão. Eu seguro a risada e o risco de perder a concentração em um sorriso de canto de boca, olhos fechados. Ele late para mim. Eu inspiro.

Som da respiração, um tanto quanto entrecortada por um resfriado que foi covid, que teima em não ir embora, frente às variações medianas diárias de 15°C do inverno na serra fluminense.

(expiro….)

A voz que sai da caixinha JBL harmoniza o balançar das minhas plantas na varanda com as árvores da rua. Venta. O céu é de um azul sereno e brilhante – os mais bonitos dias são as manhãs ensolaradas de inverno. Antes de a voz

pedir que eu fechasse os olhos, a minha posição no cômodo permitia vislumbrar a comunicação vegetal, a agitação das fofocas domingueiras no movimentar de suas sombras, que, de tão interessantes, passavam do piso frio da varanda para o laminado confortável do quarto, alcançando o tecido do pijama que protege minha pele do frio.

Inspiro…

Imagino a luz dourada preencher todo o meu organismo, serenidade e cura. Como é prazeroso parar sem culpa, manhã de domingo, e apenas estar aqui, no presente. Sem querer, momentaneamente, nada além. Apenas existir, no balançar das sombras que se fundem a minha própria. Um todo que inspira e expira.

Inspiro…

(…) preparo-me para movimentar as articulações e, quando me sentir pronta, abrir os olhos. Um barulho de ondas do mar e gaivotas, tão estranhos à paisagem da Serra, invade meu coração e não me sinto pronta para enxergar o fora de mim. As manhãs de domingo, silêncio e preguiça, funcionam como um equilíbrio das minhas atividades tão intensas. Antes de expirar por última vez de olhos fechados nessa meditação-oração, sinto os pelo do Zeca, que sentou encostado às minhas costas. Sinto o odor do incenso de alecrim. Sinto meu corpo quieto, minha agitação comedida. Sinto a brisa suave do vento gélido, e também raios de sol que aquecem meu tornozelo esquerdo.

Antes de abrir os olhos, conferir se estão de fato fechados é um gesto simples. E necessário. Imperativo, diria. Na mesma intensidade, perceber nossos olhos fechados é a essência da criação do domingo.

Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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